terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Filhos melhores para um mundo melhor

Stephan Kanitz em uma de suas recentes twitadas disse: "Estamos preocupados em deixar um mundo melhor para nossos filhos, mas será que estamos deixando filhos melhores para o nosso mundo?" A frase resume bem algo que eu vinha remoendo dentro de mim há bastante tempo. Decidi que eu precisava escrever algo sobre o assunto em minhas reflexões do blog quando eu li uma reportagem da Folha de São Paulo sobre Lady Gaga. Como o caro leitor pode verificar no link da reportagem da Folha, Lady Gaga quer um perfume com odor de esperma e sangue.



Talvez o leitor pergunte: O que há de mais nisto? Personalidades excêntricas não são novidade no meio artístico. O que isto tem a ver com a frase do Stephan Kanitz?
Usarei a metáfora do copo que transborda. A última gota não é a única culpada pelo transbordamento, mas todas que entraram antes dela também. Já há muito tempo a sociedade está aplaudindo todo o tipo de bizarrices e excentricidades. Não estou falando dos jovens: eles realmente sempre foram curiosos e questionadores por natureza. O problema está nos adultos desta sociedade, que (com exceções, é claro) deixaram de exercer seu papel moderador e educador dos filhos.

Se no passado os adultos eram muito durões e não queriam saber de dialogar nem de entender o ponto de vista dos jovens, hoje a moda foi para o extremo oposto: deixar os filhos entregues à sua própria vontade ou ceder aos seus caprichos. Estive tentando acreditar que o problema estaria relacionado ao excesso de trabalho de pais e mães que não conseguem tirar tempo para observar e instruir seus filhos; queria me convencer de que o excesso de informação e conectividade a que eles são submetidos hoje via internet e outras mídias é que deixou os pais acuados por não dominarem toda esta tecnologia e deu munição de sobra para os mais novos justificarem-se e protegerem-se uns aos outros. Mas, infelizmente, me convenci que isto é só parte da realidade. Muitos adultos estão aplaudindo essa chamada "modernidade" e até justificando seus excessos "cientificamente".

Este dias, recebi por email uma dessas mensagens que mesclam humor e reflexão. Transcrevo:

"1959  X  2010 
Cenário 1: João não fica quieto na sala de aula.       Interrompe e perturba os colegas.

Ano 1959: É mandado à sala da diretoria, fica parado esperando 1 hora. Vem o diretor, dá-lhe uma bronca descomunal e volta tranquilo à classe.
Ano 2010: É mandado ao departamento de psiquiatria,  diagnosticam-no como hiperativo, com transtornos de ansiedade e déficit de atenção em ADD. O psiquiatra  lhe receita  Rivotril. Trans- forma-se num zumbi. Os pais reivindicam uma subvenção por ter um filho incapaz.

 
Cenário 2: Luís quebra o farol de um carro no seu  bairro.

Ano 1959:  Seu pai tira a cinta e lhe aplica umas sonoras bordoadas no trazeiro...   A Luís nem lhe passa pela cabeça fazer outra nova "cagada". Cresce normalmente, vai à universidade e se transforma num profissional de sucesso.
Ano 2010: Prendem o pai de Luís por maus tratos. Con- denam-no a 5 anos de reclusão e, por 15 anos deve abster-se de ver seu  filho.   Sem o guia de uma  figura paterna, Luís se volta para a droga, delinque e fica preso num presídio especial para adolescentes. 
Cenário 3: José cai enquanto corria no pátio do colégio e machuca o joelho. Sua professora, Maria, encontra-o chorando e o abraça para confortá-lo...

Ano 1959: Rapidamente, João se sente melhor e continua brincando.
Ano 2010: A professora Maria é acusada de abuso sexual, condenada a três anos de reclusão. José passa cinco anos de terapia em terapia. Seus pais
processam o colégio por negligência e a professora por danos psicológicos, ganhando os dois juízos. Maria renuncia à docência, entra em aguda depressão e se suicida... 

Cenário 4: Disciplina escolar

Ano 1959: Fazíamos bagunça na classe... O professor nos dava umas boas "mijadas" e/ou encaminhava para a direção; chegando em casa, nosso velho nos castigava sem piedade.

Ano 2010: Fazemos bagunça na classe. O professor nos pede desculpas por repreender-nos e fica com a culpa por fazê-lo . Nosso velho vai até
o colégio se queixar do docente e, para consolar o filho, compra-lhe uma moto.

Cenário 5: Horário de Verão.
Ano 1959:Chega o dia de mudança de horário de inverno para horário de verão. Não acontece nada.
Ano 2010: Chega o dia de mudança de horário de inverno para horário de verão. A gente sofre transtornos de sono, depressão, falta de apetite,  nas mulheres aparece celulite.

Cenário 6: Fim das férias.
Ano 1959: Depois de passar férias com toda a família enfiada num Gordini, após 15 dias de sol na praia, hora de voltar. No dia seguinte se trabalha e tudo bem.
Ano 2010: Depois de voltar de Cancún, numa viagem 'all  inclusive', terminam as férias e a gente sofre da síndrome de abandono, pânico, "attack" e seborréia..."

Os pais de hoje são fruto da revolução social que ocorreu no século XX e que quebrou boa parte dos valores de referência que seus ancestrais tinham. Que valores passar aos filhos? Apelar para a ciência? O grande oráculo moderno da ciência tem bons e maus estudos e fica difícil distinguir o bom do ruim. Quem lê meus artigos sabe que eu simpatizo com a ciência, mas existe ciência de qualidade e "ciência". Infelizmente, a "ciência" tem justificado muitos excessos e irresponsabilidades. Por exemplo: há estudos afirmando que o treino intenso dos viciados em jogos de computador trás benefícios ao desenvolvimento cerebral e há estudos que afirmam que este excesso é prejudical ao cérebro (isso sem falar do corpo). Dados contraditórios! Infelizmente, muitos estudos "científicos" foram encomendados por determinados ramos da indústria com o objetivo de promover determinado produto ou serviço. Não sejamos ingênuos... há muito dinheiro envolvido. A indústria de jogos por exemplo, é um nicho extremamente lucrativo. Será que os estudos que defendem os viciados em games estão sendo neutros na sua análise? Quero deixar claro que não sou contra o uso moderado dos jogos de computador (se bem que alguns são altamente perniciosos, mas isto não é assunto para este post). São os excessos que me incomodam.

A "ciência" pode não ter uma intenção notoriamente capitalista, mas ainda assim está fazendo um mau juízo de valor. Por exemplo: um estudo recente na Austrália sugere que os pais não disciplinem seus filhos com repreensão física, pois há um indício estatístico de que as crianças que receberam disciplina tem QI ligeiramente menor e mais inibição ao expressar-se publicamente. O estudo não está falando de espancamento de filhos, que obviamente, é passível de punição justa dos pais por tamanha crueldade. O foco da discussão está na suspensão daquela "chineladinha no traseiro" ou outras formas moderadas de disciplina que eu e, talvez você, recebemos quando éramos crianças. Não pretendo me estender nas críticas ao estudo que já foram discutidas no post "Contra a Lei da Palmada". No post de hoje farei de conta que acredito que o estudo esteja certo: crianças com disciplina física moderada tem QI ligeiramente menor e um pouco mais de inibição para falar em público. Farei isso apenas para discutirmos algumas implicações deste exemplo ruim de "ciência" .

Por que um exemplo de ciência ruim? A escolha dos indicadores de sucesso na criação de um filho foi ruim. O estudo considera apenas inteligência (QI) e habilidade de comunicação, ou seja, nos induz a menosprezar se o sujeito é excêntrico, arrogante, desrespeitoso aos mais velhos e sem limites. Desde que o jovem tenha alto QI e saiba falar em público, então os pais criaram "bem" seu filho sem a tal chinelada. Não estamos cometendo um erro dar crédito a um estudo "científico" desses? Prefiro ver jovens de boa educação com habilidades normais do que Dr. House´s arrogantes. Gostaria de ver outros indicadores nesses estudos de psicologia que valorizassem caráter e postura de respeito ao seu semelhante! Posso não ser um Einstein, mas consegui concluir com boas médias meus estudos e minhas 2 pós graduações apesar das chineladas que levei na infância. Incrível não é?

Lady Gaga afirmou em uma entrevista que sente imenso prazer em chocar as pessoas. Nem precisava dizer né? Certamente, ela é uma síntese do que muitos jovens de hoje valorizam e por isso, é tão popular. Uma geração sem limites e parâmetros que é viciada em prazer. Há estudos científicos sérios mostrando a falta de limites no comer, beber, usar internet, e tantas outras coisas. E há muitos adultos espertalhões ganhando dinheiro com isso. Nós que somos pais ou mães vamos nos omitir ou, pior, apoiar este comportamento porque não temos tempo ou por que é mais cômodo deixar assim, ou ainda, por que achamos inútil lutar contra isso? Ficaremos calados frente à pseudo ciência que está querendo nos induzir abandonar valores morais em prol de um consumismo extremo e de uma formação estritamente voltada para o mercado de trabalho capitalista? Pior ainda, estamos aplaudindo toda essa "modernidade"?

Por fim, uma última pergunta ainda mais crucial: o que temos a oferecer de valores melhores que este consumismo edonista?

"O homem bom do seu bom tesouro tira coisas boas, e o homem mau do seu mau tesouro tira coisas más" (Palavras de Jesus)

2 comentários:

Cláudia disse...

Amei o texto Amore!
Só porque é moderno é bom? Nem sempre né? As pessoas atualmente tem a necessidade extrema de serem aceitas e ser moderno é "cool".
O ser humano tem cérebro e precisa usá-lo melhor nas escolhas das pequenas atitudes do dia-a-dia. Educar, no sentido real de EDUCAR, exige trabalho, empenho, esforço e dedicação do PAPAI e da MAMÃE. Em muitos momentos vencer a emoção com a razão, olhando adiante os frutos de determinadas atitudes. Escola é pra ensinar conhecimentos. Família forma caráter.
Muitas outras coisas permeiam a minha mente, mas vamos párar por aqui!
Beijo!

Anônimo disse...

Putz...qdo só a namorada comenta é pq tá foda!

Vai mais um comentário então....concordo com vc, texto muito bom!

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