domingo, 8 de agosto de 2010

Questionando a maneira como vemos o mundo

Será que tudo que se "vende" como ciência é de fato real? Uma reflexão interessante...
Voltando mais uma vez às minhas aulas na UFSC, o nosso professor de Ergonomia estava ministrando sobre Ergonomia Cognitiva.  Interessante a explanação dele sobre a diferença entre dados e informações: o primeiro diz respeito ao que os nossos sentidos captam do meio; mas o segundo é resultado do processamento dessas percepções e a síntese de conceitos. Como engenheiro que sou, vou ilustrar isso com um exemplo da matemática. O gráfico abaixo busca verificar se existe relação entre duas variáveis cujos dados (pontos vermelhos) foram determinados experimentalmente:



Aqueles que estão familiarizados com gráficos desse tipo rapidamente visualizam uma tendência que pode ser calculada empregando quaisquer métodos matemáticos consagrados na literatura. Assim, para o conjunto de dados do gráfico, enxergou-se uma tendência linear (em forma de reta) e pode inclusive calcular a equação que relaciona essas duas variáveis.
Muitas das Leis que estudamos na Física, provém desse tipo de abordagem. A informação extraída dos dados dá origem ao que costuma chamar-se de “Modelo”. No nosso exemplo, trata-se de um Modelo Matemático Experimental. Existem vários tipos de modelos: Modelos analíticos, numéricos, estatísticos, teóricos, etc. Modelar é a forma que a ciência encontrou para sintetizar grandes quantidades de dados em conceitos mais fáceis de compreender e manipular. Na verdade, modelar é uma necessidade não só no contexto científico, pois a capacidade de julgamento entre dados não relacionados entre si é limitada (vide tópico sobre Simplificação em meu artigo anterior). O exemplo que eu dei do gráfico permite prever o comportamento de um determinado fenômeno usando a equação calculada, que é muito mais simples de analisar e usar do que olhar para cada um dos dados individuais do gráfico.  Entretanto, a simplificação não ocorre sem sacrifícios. Os dados nunca se encaixam perfeitamente no modelo criado e modelos mais ou menos complexos são um compromisso entre o que se está disposto a sacrificar da realidade estudada e o esforço necessário para conseguir interpretá-la.
Outro conceito importante que gostaria de relembrar é o de teoria (Kerlinger 1980):
Uma teoria é um conjunto de constructos (conceitos), definições e proposições relacionadas entre si, que apresentam uma visão sistemática de fenômenos especificando relações entre variáveis,  com a finalidade de explicar e prever fenômenos da realidade.

Caso o leitor queira se aprofundar sobre teorias e modelos, veja:

Assim, é como se os dados fossem os tijolos, que agrupados adequadamente através de modelos servem para construção das teorias, que são os castelos. Os fundamentos muitas vezes ocultos desses castelos são as crenças mais elementares do indivíduo, ou seja, seus axiomas (meu artigo anterior explica o que são axiomas).
Bem, onde eu quero chegar com toda essa conceituação monótona? Como o processamento dos dados é filtrado por cada indivíduo de maneira diferente em razão de suas tendências particulares (vide meu artigo anterior), as conclusões podem ser bastante distintas partindo dos mesmos dados. Em outras palavras, dá para construir vários modelos de castelos com os mesmos tijolos!
Para facilitar o entendimento, vou dar um exemplo prático de como se pode, com os mesmos dados se chegar a conclusões totalmente distintas:
 Em reportagem da Folha de São Paulo, um estudo correlacionou a difusão das novelas da Rede Globo com o aumento no índice de divórcios. A conclusão de que há correlação entre as variáveis partiu de um Modelo Estatístico. Além disso, o autor do estudo afirma de que o aumento no índice de divórcios é um indicador positivo, refletindo o grito de liberdade em busca da felicidade individual. Aí o autor ultrapassa o modelo e cria uma teoria para explicar seu ponto de vista. Do ponto de vista dele, as novelas foram uma contribuição positiva para a sociedade brasileira.
Os mesmos dados, se analisados por um indivíduo com uma imagem negativa do divórcio tenderá a considerar a influência das novelas como algo negativo. Ele pode inclusive usar os mesmos dados e o mesmo modelo estatístico (ou não), porém a conversão dos dados em informação passou por “filtros” diferentes em cada indivíduo, levando a conclusões diametralmente diferentes.
Por outro lado, a internet potencializou a geração e divulgação de uma massa colossal de dados, algo inimaginável antes dela. Uma reportagem da Folha de São Paulo entitulada “Sabe com quem está falando? Logo saberá” (postado em 05/08/10) menciona um dado assustador: “o mundo produz hoje, em dois dias, praticamente o mesmo número de dados que foram produzidos "desde a aurora da civilização até 2003".
Resumindo, já vimos no artigo anterior que é absolutamente impossível alguém processar isso, ele acaba por priorizar os dados que se compatibilizam com seu ponto de vista; e agora percebemos que teorias e modelos muito diferentes são construídas sobre os mesmo dados. Qual o resultado disso?
Indivíduos tidos pela sociedade como cultos tornam-se impermeáveis a opiniões divergentes, chegando ao ponto de se tornar incapazes de questionar suas crenças mais fundamentais enterradas em gigantescos castelos da lógica humana, cujos tijolos são os infindáveis dados que ele assimilou e processou ao longo de sua vida. Com isso tornam-se defensores “invencíveis” de seus pontos de vista, com um plantel de dados gigantesco a seu favor, porém incapazes de perceber que o fundamento sobre o qual construíram tudo isso não foi uma boa escolha.
Indepentemente de quão embasado em argumentos o leitor possa estar, você já se questionou sobre quais são de fato suas crenças mais elementares e se elas de fato são coisas que vale apena se apegar? Certamente esta  é uma reflexão dolorosa para qualquer um de nós, pois vai  trazer à tona dúvidas e temores. Ela pode até mesmo ferir nossa auto-estima, se somos o tipo de pessoa que precisa se sentir senhora do saber para se sentir valorizada. Entretanto, a maneira de interpretar o mundo a nossa volta pode estar nos prejudicando muito mais do que imaginamos. Encerro então o meu artigo com uma citação:
“Quem ouve esses meus ensinamentos e vive de acordo com eles é como um homem sábio que construiu a sua casa na rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, e o vento soprou com força contra aquela casa. Porém ela não caiu porque havia sido construída na rocha.
Quem ouve esses meus ensinamentos e não vive de acordo com eles é como um homem sem juízo que construiu a sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, e o vento soprou com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou totalmente destruída.” (Palavras de Jesus no Evangelho de João 7. 24,26)

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